Manual do Menino Preto
Quando a cor da pele organiza o cotidiano, o cuidado e as formas de existir
CONTEXTUALIZAÇÕES — CLÍNICA, CORPO E MUNDO
Viviane Vaz
1/2/20265 min read


Manual do menino preto
Quando a cor da pele organiza o cotidiano, o cuidado e as formas de existir
Por Viviane Vaz | Psicóloga | Gestalt-terapeuta
Publicado em 02 de janeiro de 2026
Realizei uma pesquisa com mães de meninos negros/pretos, na faixa etária entre 15 e 24 anos — grupo que simboliza o genocídio do jovem negro no Brasil, por concentrar o maior número de vítimas fatais por armas de fogo.
Segundo dados do Atlas da Violência 2025: "observa-se que, além de o número absoluto de homicídios entre pessoas não negras ser consistentemente menor, sua redução ao longo dos onze anos analisados foi mais significativa do que entre pessoas negras. Tal descompasso revela, com ainda mais clareza, um padrão de tratamento diferenciado que se acentua quando analisamos o risco relativo de homicídio: em 2023, uma pessoa negra tinha 2,7 vezes mais chances de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra — um aumento de 15,6% em relação a 2013. Ou seja, apesar dos avanços na diminuição geral dos homicídios, a desigualdade racial associada à violência letal não apenas persiste, como se intensifica" (ATLAS DA VIOLÊNCIA, 2025, p. 73).
No decorrer da pesquisa, uma das mães trouxe uma fala que até hoje ecoa em mim como um som agudo de um alerta insistente. Ao relatar os cuidados que tinha na criação do filho e neto, ela descreveu as informações importantes e necessárias que transmitia aos meninos: “Você tem que agir assim, você tem que ficar no canto, você tem que responder ‘sim, senhor’, ‘não, senhor’, pra não acharem que ele está sendo abusado. Porque pode ser preso por desacato à autoridade, ou apanhar mesmo, ser agredido. É o manual do menino preto.” (VAZ, 2024, p. 116)
A expressão Manual do Menino Preto ressoa em mim até hoje. Ela nomeou um conjunto de regras e cuidados cotidianos criados para buscar garantir a sobrevivência dos seus meninos, que carregam no próprio corpo a marca do alvo.
Embora apenas uma mãe tenha utilizado essa expressão, todas as entrevistadas apresentavam práticas semelhantes. Regras não escritas, costumes repetidos, estratégias que procuravam, de alguma forma, blindar seus filhos das intercorrências da vida em uma sociedade que os enxerga, antes de tudo, pela cor da pele e pelos simbolismos que ela carrega.
Muitas vezes acredita-se que apenas os filhos das comunidades e favelas correm riscos mais iminentes relacionados à violência. Essa ideia, porém, se desfaz quando compreendemos que o principal marcador social que temos é a cor da pele. A pele chega sempre antes — antes do endereço, da escolaridade, da renda. Qualquer julgamento de valor ou de caráter se estabelece primeiro a partir da cor da sua pele, depois vem o resto.
Na realização da pesquisa, conversei com mães de diferentes classes sociais, níveis de escolarização e territórios da cidade — moradoras de localidades diversas, entre comunidades e bairros turísticos. O que se mantinha constante não era o lugar onde viviam, mas a necessidade de vigilância permanente sobre os corpos de seus filhos.
O Manual do Menino Preto diz respeito a essas práticas cotidianas que a população negra/preta desenvolve para tentar reduzir as possibilidades de violência. Desde não sair de um estabelecimento sem nota fiscal, até evitar colocar o celular na cintura para não ser confundido com uma arma. Desde preparar os filhos para uma abordagem policial, até escolher cuidadosamente a roupa com que irão sair, porque a aparência parece sempre importar. Desde prevenir algazarras no shopping com os amigos, até verificar repetidas vezes se estão com seus documentos antes de sair de casa, e por aí.
E então, o que isso afeta na saúde mental?
E o que você tem a ver com isso?
Certos “manuais” não estão descritos nem à venda nas melhores livrarias. Eles fazem parte do cotidiano de populações que vivem em contextos historicamente minorizados. E quando falamos de exclusão, raça é um marcador imperativo.
Muitas vezes, no atendimento psicológico, o profissional não se dá conta do contexto de onde emergem comportamentos que aparecem como “cristalizados”. Vivências insalubres, repetidas e invisibilizadas produzem modos de se estar no mundo. São contextos amplamente vividos, ainda que frequentemente tratados como exceção. Saber disso exige posicionamento.
Pessoas ansiosas, excessivamente tímidas ou percebidas como agressivas (aqui, agressividade não como violência, mas como rudeza) chegam à clínica atravessadas por esse chorume social. Sem a leitura do campo, esses comportamentos são facilmente enquadrados como falha individual ou traço de personalidade, sem que se perceba o fundo de vivências que sustenta tais figuras.
O Manual do Menino Preto fala de experiências preventivas, antecipatórias, marcadas pela preocupação constante e pela busca de autopreservação. Revela vivências tolhidas pelo risco permanente. Isso diferencia meninos negros/pretos de meninos não negros — e diferencia, também, a forma como essas vivências são acolhidas, ou não, nos espaços de cuidado.
Por isso insisto: não é possível sustentar uma clínica descontextualizada e neutra. Diante de uma pessoa, devemos ser apenas outra pessoa — mas com consciência crítica do espaço que ocupamos e do espaço que o outro ocupa nesta relação eu-tu.
Este texto apresenta o Manual do Menino Preto de forma introdutória, como ponto de partida para um debate mais amplo sobre as formas de violência e opressão destinadas a determinados corpos.
Lembrando que a pesquisa foi realizada com mães, falar sobre o Manual do Menino Preto não se encerra nesse menino. Ele atravessa sua família, sua comunidade e a sociedade como um todo. Afinal, se um menino precisa de um manual de sobrevivência, é porque o campo onde ele existe está minado — e, neste caso, não foi ele quem escondeu as minas
Referências
INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (Ipea); FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA (FBSP). Atlas da violência 2025: retrato dos municípios brasileiros e dinâmica regional do crime organizado: ano base dos dados: 2023. Brasília, DF; São Paulo: Ipea; FBSP, 2025. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/5999-atlasdaviolencia2025.pdf. Acesso em: 30 dez. [URL completo da publicação]. Acesso em: dia mês ano.
VAZ, Viviane. Ansiedade de mães negras na diáspora brasileira. In: BARROSO, Marcia (org), SILVA, Andreia (org). Tecendo diálogos entre psicoterapias.1.ed – Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2024.

