Psicofolia — entre o batuque e o cuidado

Carnaval, corpo e saúde mental como território de cuidado coletivo

PSICOFOLIA - SOBRE PSICOLOGIA E CARNAVAL

Viviane Vaz — Psicóloga | Gestalt-terapeuta

2/7/20263 min read

Psicofolia — entre o batuque e o cuidado

Carnaval, corpo e saúde mental como território de cuidado coletivo

Por Viviane Vaz | Psicóloga | Gestalt-terapeuta
Publicado em 02 de janeiro de 2026

Há quem diga que o carnaval não tem relação alguma com saúde mental. Essa leitura, no entanto, ignora o que o corpo, o coletivo e a cultura produzem como cuidado.

Viver o carnaval é experimentar um pertencimento que ultrapassa as individualidades. É fazer parte de um coletivo que ensina, sustenta, cura e abençoa. O carnaval nunca foi excesso, fuga ou alienação. Ele é uma festa que sustenta vidas muito além de quatro dias no calendário.

Psicofolia nasce desse lugar: da experiência da foliã psicóloga que compreende que o cuidado em saúde mental não acontece apenas no consultório, mas também nos territórios onde o corpo pode existir com dignidade e reconhecimento — especialmente o corpo negro.

Carnaval não é fuga. É elaboração.

Para a população negra, viver em uma sociedade atravessada pelo racismo produz marcas profundas: silenciamentos, vigilância constante, medo, apagamento da história e da identidade. Isso adoece.

O carnaval, em suas tradições e renovações, reorganiza a forma como as pessoas se projetam no mundo. Um corpo negro no samba é movimento, presença e resistência. É um corpo vivo que escreve a própria história e faz da festa um manifesto de vida.

O carnaval permite que a alegria não seja culpa, mas direito — e isso tem efeito direto na saúde mental. Há, nesse encontro entre corpo e ritmo, uma conexão profunda entre mente, afeto e liberdade. Poder ser sem temer é, por si só, um gesto terapêutico.

Pertencer também é cuidado

No barracão, na quadra e na avenida, vemos pessoas reais — vizinhos, colegas de trabalho, familiares — transformando suor, memória e história em narrativa coletiva.

O carnaval é uma grande produção que só existe pelo esforço da coletividade. Nada se faz sozinho. São muitas mãos, muito trabalho, profissionalismo e competência para sustentar a maior expressão cultural do nosso país.

Quando falamos de saúde mental coletiva, há no samba algo singular para corpos negros. No samba, não chegamos como suspeitos. Não somos o corpo a ser vigiado. Somos expressão máxima da festa. Isso produz outra experiência de existir — sensações, afetos e reconhecimentos que não costumam nos ser oferecidos em outros espaços sociais.

A Psicofolia nasce também do incômodo: de perceber que a festa que produz tanto bem-estar segue sendo mal compreendida, deslegitimada ou condenada por discursos que desconsideram seus efeitos subjetivos e políticos.

Não se trata de romantizar o carnaval, mas de reconhecer sua potência simbólica — especialmente no que diz respeito à vivência da população negra.

O carnaval é, sim, um manifesto político. Compreender suas afetações no campo da saúde mental é fundamental para repensarmos formas de atuação psicológica a partir dos saberes que nascem do chão, da rua, da convivência. É deslocar a psicologia exclusivamente dos livros e reinscrevê-la na vida vivida.

Psicofolia propõe pensar:

  • o corpo como território de cuidado

  • o coletivo como dispositivo de sustentação psíquica

  • a alegria como gesto de reparação

  • a cultura como prática antirracista viva

Falar de saúde mental a partir do carnaval é ampliar a escuta.
É romper com a lógica higienista que separa cuidado de prazer, clínica de cultura, política de afeto.

Um convite

Este texto — e tudo o que nasce da Psicofolia — é um convite para pensar junto.

Pensar a clínica para além das paredes.
Pensar o cuidado para além da dor.
Pensar a saúde mental como direito de existir inteiro, em movimento e em comunidade.

Porque o carnaval está muito além da simples folia. Ele carrega repertório simbólico, político e afetivo suficiente para se afirmar como instrumento de cuidado, manifesto de existência e possibilidade de cura no campo da saúde mental.

Viviane Vaz é psicóloga e gestalt-terapeuta (CRP 05/74891). Pesquisa e escreve sobre saúde mental, raça e cultura, articulando clínica, corpo e coletividade como territórios de cuidado.